11 de outubro de 2016

pai, eu dei-te o melhor que te podia dar e tu recebeste o que menos merecias: o meu perdão. Sabes pai, e eu sei que tu sabes ainda que queiras fingir que não, tu destruíste a minha infância e roubaste a minha identidade; fizeste-me percorrer os caminhos mais escuros que se tornaram nos pilares da pessoa que sou hoje e obrigaste-me a viver a vida que eu não escolhi, mas que tu preparaste para mim. pai, tu tiveste de mim o perdão que mais ninguém te deu, só eu. O olhar de quem imaginava «se fosse eu», se a tua história turbulenta tivesse sido a minha, e se fosse eu a estar realmente sozinha? E todos os dias, sem tu saberes, eu tentava regular o equilíbrio das minhas emoções na pseudo-relação que mantinha contigo: ora te odiava, ora te perdoava; ora não aceitava o que fizeste, ora compreendia; ora desejava que tu morresses, ora sentia pena por viveres uma vida quase morto. E foi por causa da inocência que nunca perdi, da bondade que nunca soube travar, que aceitei ajudar-te sabendo eu e sabendo tu, que nunca me ajudaste. Que nunca foste meu pai, meu nada. E que eu fui, sempre que precisaste, a tua filha e o teu tudo. Quando não merecias e ainda que eu quisesse muito ver-te cair no fundo, segurava-te. Pela inocência que não me larga e a bondade que me atravessa a consciência de eu fazer algo que não me define. pai, a partir de hoje eu não quero medir o discernimento dos teus comportamentos, não vou pensar mais como se fosse eu no teu lugar, porque hoje sei, como nunca antes soube, que eu não seria capaz de ser o monstro que tu és. Eu sou tua filha mas tu não fizeste o papel de pai. Eu sou tua filha, mas tu nunca te importaste de como eu vivo, em cada dia que eu acordo e sei, que tu mataste a minha mãe. sabes pai, no final de tudo, eu vou continuar a dar-te o que tu menos merecias receber - o meu perdão - porque eu sei que o meu perdão não vai transformar a tristeza que sentes, de cada vez que te lembras da pessoa que és. Eu perdoo-te por seres pequeno e fingires que não vês que eu apenas te dou o que a minha mãe te dava: bondade. E ainda assim, repara, mataste-a. E ela agora é Feliz e tu, ainda que vivo, estás Morto. 

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