17 de dezembro de 2014

mãe


A vida tirou-te de mim,
Tu tiraste-me um pouco da vida,  da cor, do sabor
Hoje sabe-me a amargo, a cebola como eu não gosto
Eu não escolhi e tu não escolheste, eu sei
Hoje eu sei que poderia ter sido diferente
Eu poderia ter feito diferente, mas não fiz
Hoje eu sei o que é a vida, a vida quando a morte te levou
A mãe, a amiga, a escolhida
Quem gritava, quem beijava
Quem amava sem motivos para amar
Quem ficava com mil motivos para ir embora
Eu sei, eu era o teu motivo, o forte, o que te fez lutar
Até ao fim quando o fim te levou
Hoje eu quero que saibas que o meu motivo és tu
Mesmo depois de não estares, estás
Mesmo depois de ires, ficaste
O motivo que comanda a vida que restou da vida que me levaste
O motivo da esperança que sobreviveu à esperança que mataste
Da vida bela e amarela como um arco-íris que um dia conheci
Pequena, inocente, a vida era bela
E, ainda quando era não capaz de ajudar, nem de ver
A vida era bela para mim
Enquanto a vida era madrasta para ti
Perdoa-me mãe, por ser pequena, por não ter lutado
Eu queria estar ao teu lado, queria…
Eu teria estado, se pudesse
E dar-te-ia a vida que merecias, que um dia escolheste e não tiveste mais
Eu teria tirado a minha vida para te dar
Eu sei que tiraste a tua para me dar
Perdoa-me mãe, quem me dera ter ido no teu lugar
A vida não é mais bela
A vida não é mais amarela
Mãe, eu não sou mais a pequena que levavas ao ballet
Mãe, eu não sou mais a pequena que riscava os cadernos enquanto te ouvia dizer
“Catarina, não faças isso!”
Mãe, a vida agora é outra
Hoje eu cresci
A vida é cinzenta sem ti
Não consegues ver?
Aí em cima… estarás aí em cima?
A vida não é mais a vida que escolhi
Ou que escolheste para mim
Não sei
Perdoa-me mãe, mas nunca aprenderei a viver sem ti
Ou a não pensar em ti
Ou a não ter saudades tuas
É que tu levaste muito de mim
E foi pouco o que ficou comigo
Perdoa-me mãe, a pequena cresceu
A menina que ontem queria o mundo…

Hoje sei que mais nada é meu.

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