27 de novembro de 2014


Nunca fui de falar com alguém. Acho que nunca serei. Acho que, ao longo de toda a minha vida, até hoje, foi isso que mais me faltou: ter alguém que ouvisse o pior de mim e, mesmo assim, fosse capaz de apreciar o meu melhor. Eu nunca tive, mas eu sempre quis. É por isso que, em momentos em que o dia é cinzento e o Outono me faz chorar, eu sinto que tenho em mim meio mundo, sinto que carrego em mim tudo o que queria dizer e não digo. E não, não é por me faltarem pessoas que dizem que eu posso falar... é por eu saber perfeitamente que quando eu falar eu não vou ser compreendida. As pessoas ouvem, mas não sentem e é isso que diferencia alguém que pode ajudar ou não.
Eu sei que me sinto cansada muitas vezes. Mas também sei que em todas essas vezes o meu cansaço acaba por se dissipar. Mas, dissipar não significa desaparecer. Os dias maus vão voltar. Os dias em que preciso e quero chorar o dia inteiro não vão desaparecer, pelo simples e doloroso motivo: eu não vou nunca mudar o meu passado. Eu não vou nunca ter a minha mãe. Eu não vou nunca ter uma família. Eu não vou nunca ser uma adolescente normal. Eu não vou nunca saber o que é viver numa casa com pessoas que se preocupam comigo. Eu não vou nunca deixar de pensar no que sempre me aconteceu. Eu não vou nunca esquecer como cheguei à pessoa que sou. E, apesar de ter orgulho e saber que sou o que nunca ninguém me ensinou, eu não vou nunca esquecer-me do que me tornou assim. É isso que dói e eu tento não lembrar. E, depois de tudo, eu não sei como poderei tratar dos problemas dos outros quando carrego em mim muitos problemas que ninguém tira. E, depois de tudo, eu não sei como poderei distinguir a vida pessoal da profissional porque estive, estou e sei o que é estar deste lado. Como não vou eu chorar? Como não vou eu ser emotiva ao ver uma criança a ser arrancada da família e ser obrigada a crescer numa instituição? Como vou permanecer intacta? Se aquela criança... um dia fui eu.

3 comentários:

  1. Acredito que não tenha sido fácil crescer nesse ambiente de instituição. Mas na questão do "falar com alguém" eu também nunca fui de falar com ninguém e por isso é que sofro muitas vezes sozinha, também me sinto assim, que se eu falar ninguém vai compreender, ás vezes só precisava que me ouvissem,nem precisavam de falar.. mas compreender? é rara a pessoa que irá fazê-lo. acho que já aprendi a viver com isso, mas gostava que isso muda-se.

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  2. Imagino como deve ser complicado a tua situação, deves ter uma vida estupidamente difícil. Mas de certeza que vais acabar por conseguir encontrar alguém que se preocupe genuinamente contigo, a principio é sempre difícil de confiar em alguém, mas com o tempo e amizade vais conseguir fazê-lo...

    http://ummarderecordacoes.blogs.sapo.pt/

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  3. "Eu não vou nunca esquecer como cheguei à pessoa que sou. E, apesar de ter orgulho e saber que sou o que nunca ninguém me ensinou, eu não vou nunca esquecer-me do que me tornou assim."

    Vi-me espelhada nesta frase... E apesar de não ter vivido uma situação como a tua, senti as tuas palavras ao milímetro, chorei e imaginei-me a limpar-te as lágrimas ( que com certeza choras nem que seja dentro de ti) e a abafá-las com um abraço. Incrível como os piores acontecimentos nos tornam nas melhores pessoas. (:

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