8 de outubro de 2014


Um vez perguntaram - me o quê que era preciso para ser assistente social e de onde vinha tanto desejo te trabalhar ao lado de meninas adolescentes. Trabalhar ao lado, em vez de comandar. Ser a amiga, em vez de ser a encarregada de educação. Ser a ouvinte, em vez de quem fala. Estar que é o contrário de fingir estar. Eu hesitei. Não respondi. Demorei breves segundos a pensar. Aquilo não era justo. Não é por eu não saber o que é preciso, porque sei, talvez mais do que algumas assistentes sociais que têm uma carreira imensa. É por o que ser preciso, ser muito mais do que falado. Falar..falar são palavras. E escolher ser assistente social e servir como um apoio firme substituindo todos os apoios que falharam, é sentido. Vem de dentro. Do passado. Da ajuda. Da minha história. É do coração. Do pedaço mais profundo. Palavras não mudam ninguém, atos sim. E é isso que eu respondi, sem saber se poderia ser ou não compreendida. Porque afinal, eu sei de mim e pouco sei do mundo. Ao mundo faltam-lhe atitudes, a mim faltam-me formas corretas de ajudar. Hoje sei. Sei tudo isto. 
Ontem não sabia, nem metade, nem nada. Ontem fui a menina perdida, que pediu e precisava de ajuda. Hoje sou o que precisar de ser: amiga, bruxa má, psicóloga ou explicadora. Ontem o passado deixou-me no chão. Hoje tenho toda a força para levantar dez meninas nos meus braços, se for preciso. Eu estive do outro lado. Eu sei o que é estar do outro lado e, por ter estado do outro lado, aprendi a ser mais humana, aprendi a ser mais de mim, aprendi a receber mais dos outros.
Hoje eu sei que há muitos tipos de meninas e muitas formas (todas diferentes) de agir face aos problemas da vida. E é hoje, o dia em que posso compreender o tipo de menina que eu fui, que eu escolhi ser, crescer e viver. Há quem se revolte com a vida e simplesmente não lute para ser o que gostava de ter para ela: alguém calma, que a oiça, que a ajude. Escolhem ser mal-educadas. Escolhem faltar às aulas. Escolhem ter toda a nossa atenção pelos motivos mais negativos que existem. Escolhem ser felizes de uma maneira que, na verdade, não são. Escolhem as drogas, o tabaco, os amigos que não são amigos e os caminhos que no fim são um buraco escuro, quase sem saída. Escolhem as faltas em vez das aulas. Escolhem a rua em vez da família. Escolhem insultar os outros, ter duas caras. Escolhem não ser ajudadas e não ajudar. Escolhem ser perturbadas e arriscam-se a não ter/ser/fazer nada na vida. Pelo menos, nada que valha a pena.
Muito tempo eu tentei entender este tipo de meninas. Muito tempo eu me tentei colocar no lugar delas. Muito tempo eu fiquei em silêncio e a observar. Muito tempo eu sofri ao engolir. Muito tempo... tempo perdido em que me magoei por chegar à conclusão que deixou em mim um golpe fundo - a verdade é tão fria e tão nua - elas escolheram ser assim. Sim, é duro. Antes parecia-me mais doloroso. Hoje não. Hoje eu aceitei. Elas de facto escolheram. Elas de facto tiveram a opção de serem outra coisa, uma coisa melhor, alguém diferente. Elas, de facto, escolherem ser aquilo que são, mesmo que aquilo que são não seja o melhor para o seu futuro. Foi uma opção delas. Boa ou má, um dia saberão.
No passado não era fácil para mim sentar-me à mesa e sentir-me diferente, a mais. No passado, não era fácil para mim ter um conceito tão fechado de "amizade". No passado, não era difícíl para mim ignorar, mas era difícil interiorizar. Tantas meninas com histórias de vida difícil.. e tão poucas eram as que tinham o coração na boca, nas mãos, prontas a ajudar. Tantas meninas com histórias, com vidas cheias de dor, de perda, angústia e ansiedade.. E eram tão diferentes, todas elas. 
Eu escolhi ser o que sou e, desde que me apercebi desta decisão, foi mais simples para mim entender todo o resto. Era mais fácil eu ter-me tornado uma revoltada. Era mais fácil eu ter desistido de estudar. Era mais fácil eu tratar mal as pessoas quando o dia não corria bem. Era mais fácil resolver os problemas "à porrada" do que conversar. Era mais fácil falar aqui e dizer outra coisa ali. Era mais fácil colocar uma máscara na minha cara e fingir ser o que me apetecesse ser, naquele momento. Era mais fácil os caminhos maus. Era mais fácil que eu não tivesse largado o tabaco. Era mais fácil se eu não tivesse calma. Só que, a partir do momento em que eu decidi ser eu, apercebi-me que o fácil tinha o sabor amargo, sem nós vermos. Elas hoje não vêm isso, mas na altura eu vi. O fácil não nos leva longe. O fácil não faz a nossa felicidade perdurar. O fácil traz-nos amigos ou pessoas para perto de nós, mas apenas por conveniências. O fácil é para os fracos. E eu sou forte, sempre fui, sempre serei. Por isso eu escolhi ser o que sou. Por isso eu hoje tenho orgulho na pessoa que me tornei, na pessoa que fiz crescer em mim: sozinha, mas cheia de valores que defendo com unhas, garras e dentes. E por vezes sinto-me tão pesada com apenas 19 anos. E por vezes sinto que tenho uma mala cheia de tudo e que não acaba. Eu aprendi a conversar quando me apetece gritar e isso não foi fácil. Eu aprendi e levantar a cabeça e continuar - porque o poder de ignorança deita os fracos abaixo. Eu aprendi a chorar no momento certo, mas com toda a certeza que amanhã voltarei a sorrir. Eu aprendi que todos os problemas se resolvem. Eu aprendi que amigos existem tão poucos e que o tabaco não me leva de mundo nenhum. Eu aprendi muito, em pouco tempo. Mas sobretudo aprendi muito, sem ninguém me ensinar. Foi a vida que me ensinou. Foi o passado quem me obrigou. Foi a minha história que assim ditou. Foram as pessoas que passaram por mim e foram embora. Mas também foram as pessoas que vieram e ficaram. E o que mais me custou a aprender e a aceitar é que nós somos aquilo que escolhemos ser.
Uma vez também me perguntaram como me tornei isto. Na altura não sabia se era bom ou mau, mas hoje sei. Isto - que é o que sou - é aquilo que quero ensinar às que forem minhas meninas, aos filhos que um dia terei e a qualquer outra pessoa que ache que eu lhe posso dar alguma coisa. Isto, é o que nunca foram para mim e eu desejava. Isto, é ser amiga e ter coração de assistente social. Ser assistente social é vestir uma capa de proteção e nem toda a gente deveria ter direito a vestir essa capa que transporta tanto orgulho e dedicação.
Eu sei do que falo. Eu não me esqueço de que estive do outro lado. Eu lembro-me de que algumas - que se denominavam boas assistentes sociais - trabalhavam à base de ameaças. Eu lembro-me que uma psicóloga não me deixou falar. Que elas não perguntavam todos os dias se eu estava bem. Eu lembro-me que lá não fui feliz, mas hoje ao recordar sou, porque aquilo faz parte de mim. Eu sei que apenas uma merecia o título, mas até essa era influenciada pelas outras que não tinham o que é preciso no coração.
Uma vez perguntaram-me o que era preciso para ter esta profissão. E eu não soube. Uma pergunta tão profunda não merece nenhuma resposta rápida. A resposta é a Vida. A resposta é a História indivídual que nós temos. A resposta é o que nós escolhemos ser, ao longo de todo o tempo em que existimos. Eu tenho uma certeza: só quem esteve do outro lado poderá entender, até ao mais profundo e escondido pormenor, o que é viver assim. Isto não é uma profissão, é uma escolha que se faz. Viver para os outros. 
Ser assistente social é colocar o coração em cada palavra e controlar a ansiedade de ter uma vida na minha vida.
Eu escolhi ser o que sempre quis ter e nunca tive. Eu escolhi seguir a minha 2º profissão de eleição e tenho-lhe todo este amor e orgulho. Eu não quero sequer imaginar o que sentiria se estivesse na minha profissão de eleição.

4 comentários:

  1. O que interessa é que de certa forma seguiste o coração para a tua escolha...
    R: Obrigada :)

    ResponderEliminar
  2. Não importa os caminhos que seguimos, eles só têm de nos fazer feliz.
    Nunca te arrependas das coisas que são feitas de coração, elas são a prova de que somos humanos e não máquinas...
    Beijinhos, boa semana :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tudo o que dizemos com o coracao,e ouvido com o coracao o meu ouviu o teu e sentiu o k sentis te..tambem chorei porque sei que sempre fui uma fraca toda a minha vida fugi,ou seja,sempre fui uma cobarde...mas hoje eu vou conseguir vencer porque tenho a marta para seguir tu es tudo o k eu sempre envejei e sempre afastei para nao me sintir fraca es uma forca da natureza adoro te

      Eliminar

Fica em segredo, entre nós.