7 de maio de 2013

a última carta

Não vou escrever para ninguém. Ninguém deveria conhecer-me, é por isso que não me dirigo a ninguém. Nunca possuí pessoas que me poderiam pertencer para sempre. Tudo sempre foi miragem, ilusão ou desejos. Nunca tive o prazer de viver ou estar aqui, ou talvez ir ali e ficar no melhor lugar. Sempre quis partir sem voltar, ir para lugar nenhum. Sempre desejei, intensamente, não ter de estar aqui, não ser obrigada. Nem a falar, nem a respirar. Nem a sentir, nem a pensar. Nem nada. Nada de nada e zero. Mas, sempre me obrigaram. Não sou boa pessoa. Definitivamente, não. Não sou equilibrada e temo que nunca virei a ser. Sou explosiva, pior que furacão. Sou desconfiada, porque a confiança é mais um oásis no deserto. Não creio em pessoas puras, mas creio em Deus. Sou 8 e 80, nunca no ponto certo. E, tudo o que sei que mereço, é não ter nada, não ter nada como nunca tive até agora. Nem amigos, nem família, nem lugar para estar. Continuo a ser má pessoa, todos os dias e cada vez mais. Não dá para ser melhor. Não encontro a poção ou o motivo. Não vou escrever para ninguém porque não tenho para quem escrever. Sei que não tens orgulho em mim, mãe. Sei que não querias que fumasse e parece que entrei no círculo vicioso. Talvez um dia encontre a saída. Sei que querias que entrasse em Direito, ou que não tivesse desistido do ballet. É só que, existem momentos em que não mandamos nas nossas decisões e por outro lado, sonhos são sonhos, se não fossem sonhos não teriam o nome. Mãe, eu não abandonei a mana. Ela também não me abandonou. Mas algo se perdeu e eu não sei o que foi, acho que nunca saberei. Acho que o barco rebentou para o lado contrário daquele que era o melhor, não foi a minha opção, nunca seria, só não sou forte o suficiente, não sei como a tirar daquele buraco negro, escuro e assombrado. Os fantasmas conseguiram apanhá-la mãe e acho que virão buscar-me a mim: sou a próxima. Perdoa-me porque eu lamento tudo. Lamento o facto de ter nascido, mas não o facto de seres minha mãe. Lamento ser tão contraditória. Lamento a mana ser tão doente. Lamento sentir que não terei cura também. Lamento não te ter aqui e lembrar-me tão pouco de ti como se estivesses no baú das memórias quase apagadas. Lamento ter riscado tanto os cadernos da mana ao ponto de me teres de chamar catarina. Lamento Mãe, lamento teres partido sem me ajudares a crescer. Mãe, sinto a tua falta. Tanta, tanta, tanta. Tanta vezes infinitas tantas infinitas. Lamento não ser uma pessoa normal. O rumo foi-se. Às vezes sinto-me cansada. Às vezes? Tenho de susbstituir o cansada pelo adormecer para sempre. A batalha nem sequer começou e a energia está descarregada. Não quero ter de viver mais. E não deverias poder obrigar-me. Ouviste, Deus? Não devias. Lamento pedir-te tanto para me levares e tu me dares em troca o contrário daquilo que eu preciso. Preciso, não quero. Não querer era uma desculpa e precisar faz parte da sobrevivência. Deus, lamento também por te culpar por a teres levado. Tu tinhas o poder de a fazer viver e deixaste-a ir embora. Tu tens o poder de me levar e continuas a deixar-me ficar. Tu só fazes o oposto do que preciso e eu continuo a crer em ti. Existes?
Pai? Pai, sabendo que tens a preferida, sabendo que só fazes o que fazes para deixares claro que continuas a ser meu pai para sempre... eu queria dar-te as piores palavras possíveis e os insultos mais difíceis de ouvir, mas, sem saber de que é feito o meu coração, fico-me pelo silêncio que irá sempre consumir-me. Sei que te ficarás pela solidão que um dia te absorverá. Sei que vais continuar a fechar-te no cubículo do teu quarto a assistir televisão para veres o tempo passar. Sei que os monstros jamais te abandonarão e, quero acreditar, que as asneiras foram consequências dos monstros mentais. Tu também tens bondade, só não sei onde ela está. Então, cuida da mana, mesmo sabendo que mal cuidas de ti. Agarra a mana quando ela decidir que quer ir embora sem voltar. É, ela gosta de atenção e não tolera que não mostrem importância. Ela ainda é uma bebé e talvez nem cresca. Ela ainda gosta que lhe dês mimos, mesmo que não sejas Homem dessas coisas. Senta-te no sofá a ver televisão com ela, eu sei que ela assim não vai sentir que está sozinha. Quando ela te contrariar, dá-lhe razão, mesmo que ela não a tenha. Quando ela chorar pai, deita-te na cama com ela e comecem a deprimir os dois. Não sei porquê, mas é essa a forma que ela vê o carinho que sentes. Não arrumes a casa quando não lhe apetecer fazer nada. Simplesmente, não faças nada. Sê só um boneco bem mandado e desfaz-te da tua vida individual e aceita viveres uma vida num pessoa só. É desta forma que a vais segurar quando eu não consegui. Quem saiba me arrependa de não ter deixado de ter vida, para viver a dela. Não posso lamentar a família que me saiu na lotaria. Afinal, não foi Deus quem a escolher? Portanto, devo apenas agradecer por não quererem saber de mim. Correção: devo agradecer por fingirem querer saber de mim. Palavras leva-as o vento, mas eles não sabem. Atitudes marcam vidas... Eles não agem, porque já reparam que não tenho vida ou então que não quero saber dela. Não posso lamentar porque devo compreender. A minha família somente é diferente das outras famílias que existem. Contudo, sei que por aí podem existir famílias como as minhas - o mundo passa a ser cor de rosa quando não existem problemas graves. Obrigada família, por não o serem.
E por entre um coração na boca e umas lágrimas presas no peito, descobri que tenho a quem escrever. O problema é apenas que não querem ouvir o que sinto, desde que me conhecem. Se nem a própria família ouvirá, como é que eu vou acreditar que posso ter amizades? Não sou uma pessoa recomendada. Sou exigente e complicada. Não procuro ninguém, porque tenho medo daquilo que posso encontrar. Pareço fria enquanto o coração, por dentro, derrete. Tenho de ficar sozinha e parar de contagiar as pessoas que gostam de mim de forma negativa. Sou do tipo de pessoa que nem eu queria por perto. E por seres a pessoa a quem sempre terei mais amor... Desculpa Mãe... continuo a desejar a minha própria morte. Desejarei sempre.

2 comentários:

  1. Quem me dera a mim saber como, tanta coisa que mudava...

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  2. Eu estou bem querida, é só uma fase má, mas já passa! Sim, acredito em Deus, mas não sou religiosa..

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